Quarta-feira, 7 de Julho de 2004

O Património Molinológico!

 
Apesar do abandono a que está votado grande parte deste património, ainda existem proprietários, associações, autarquias, ou outras entidades públicas ou privadas, que apostam na recuperação e valorização do mesmo. Nesse sentido, pode-se colocar a questão: Para quê recuperar os moinhos tradicionais? Naturalmente que o seu carácter patrimonial é inquestionável, uma vez que representam a memória de um povo, a sua história económica e social, a sua história tecnológica e, frequentemente, o repositório de crenças, ditos e de pequenas estórias, que constituem parte do imaginário popular. Para além disso, e talvez menos evidente, os moinhos tradicionais têm, através dos mecanismos que os equipam, um enorme potencial pedagógico, uma vez que representam a aplicação prática de princípios físicos que são estudados desde o ensino secundário (noção de força, de binário, de trabalho e de potência; máquinas simples como roldanas e alavancas, etc.) até ao ensino superior (turbomáquinas, aproveitamento da energia eólica, etc.).

Para além disso, sendo devidamente integrados num contexto patrimonial local, podem constituir pontos de interesse turístico relevantes e, nesta medida, cativarem os visitantes e prolongarem a sua estadia. A capacidade de atracção dos moinhos transcende o mero imóvel e a sua máquina; está também muito dependente da sua integração. A organização de um roteiro de visita passando por moinhos deve permitir o contacto com o património natural, com paisagens frequentemente espectaculares, com os caminhos tradicionais, com a arquitectura rural religiosa (igrejas, capelas, alminhas, cruzeiros, etc.) e profana (casas, fontes, pontes, obras de irrigação, etc.) e com as estórias que lhes estão associadas, atingindo assim a sua plena integração e possibilitando um conhecimento mais aprofundado do passado dessas comunidades. Este é um objectivo de desenvolvimento local, uma vez que a atracção de novos consumidores e o prolongamento da sua estadia incrementa a actividade económica local. Nesse sentido, esses projectos de recuperação e valorização poderão acabar por ter mesmo apoios oficiais ao nível de programas ligados à cultura, ao turismo, ou ao desenvolvimento rural.

Não deve ser negligenciada a capacidade de atracção que a imagem dos moinhos tradicionais tem sobre as pessoas. As raízes rurais de grande parte da população que actualmente vive na faixa litoral do território português e, em especial, nos grandes centros urbanos e populacionais, torna-os particularmente sensíveis à imagem dos moinhos tradicionais, muitas vezes representando para esses indivíduos uma imagem de infância e juventude. Para além disso, o património molinológico, profundamente integrado no ambiente natural e fazendo uso de energias renováveis, apela directamente para os valores emergentes ligados às preocupações ecológicas da sociedade pós-industrial. Esta capacidade de atracção é já visível na sua associação a algumas regiões turísticas de Portugal, como seja a Região Oeste, ou até mesmo ao caso da Rota dos Moinhos do concelho de Penacova. Além disso, existem neste momento outros projectos em estudo ou mesmo em fase de implementação, como sejam os casos do projecto de Boticas ou até mesmo o de Oliveira de Azemeis, os quais irão concerteza tirar proveitos dessa aposta.

É urgente dar a conhecer melhor este valioso património construído, a grande maioria dele desconhecido ou esquecido, em que se aliam velhas técnicas de construção tradicional e engenhosas obras de hidráulica, e cuja actividade associada sempre teve uma grande importância na economia e na vida das populações. Eram muitas as famílias que exerciam a profissão de moleiros, eram inúmeros os lavradores que tinham direito a moer no moinho comunitário e a propriedade de um moinho era um factor de alguma importância social e económica. Hoje em dia, tudo mudou. O fim do isolamento das populações e da prática da agricultura de subsistência permitiu o acesso a outras formas de vida e de consumo. O advento dos moinhos eléctricos, os quais se instalavam dentro de casa e permitiam a moagem durante todo o ano, afastou muitas pessoas da ida ao moinho tradicional e reduziu substancialmente o negócio dos moleiros.

O progressivo abandono da agricultura e o envelhecimento daqueles que dominavam as técnicas e a paixão por estes engenhos votou ao abandono quase todo este património. Apesar de tudo, ainda existem alguns rodízios ou velas a rodar e algumas mós a moer. Talvez sejam os últimos e só subsistem à custa do empenho pessoal de uns quantos. É urgente valorizar e divulgar estas marcas do nosso passado, mostrando-as às gerações actuais e futuras. O aproveitamento deste património para fins didácticos, culturais ou meramente turísticos, pode e deve ser a solução para permitir a sua preservação, podendo mesmo contribuir para o próprio desenvolvimento local.

Publicado por Armando às 19:05
Link do artigo | Comentar | Adicionar aos favoritos
|
2 comentários:
De Anónimo a 7 de Abril de 2005 às 10:15
A tentativa de recuperação de um moinho é hoje em dia muito difícil devido a falta de artesões, e também da nossa falta de respeito com os nossos próprios antepassados.
No nosso país os responsáveis pelas nossas instituições, têm falta de sensibilidade, não reconhecendo muitas vezes o valor do património que deixem destruir sem nada fazerem
Tentamos e conseguimos reconstruir um dos únicos moinhos localizado no rio Távora, sem ajuda de nenhuma instituição, já sofremos duas cheias por culpa exclusiva da barragem Vilar-Tabuaço e o que recebemos foi uma carta a tirar a água do capote.
O seu blog é muito bom, agradeço a ajuda dada no recolhecimento deste bocado da nossa história que são os moinhos Portugueses.

já há algun tempo que estou em falta.
por não deixar um comentário nos artigos publicados alvaro lopes
(http://moinhodaspoldras.tripod.com)
(mailto:moinhodaspoldras@sapo.pt)


De Anónimo a 1 de Agosto de 2004 às 16:03
pois é, uma coisa que sempre me impressiona nas minhas frequentes incursões pelos sitios mais recônditos detse nosso pais (e para ser honesto não~só, porque em espanha a situação está longe de ser melhor) é o estado de abandono dos terrenos e património edificado (do qual os moinhos, nomeadmente os de água que são aqueles que encontro mais, são um dos expoentes máximos).É triste que o abandono do interior deixe em degradação tanto do nosso património. O facto é que em muitos casos os actuais herdeiros nem sabem que ao abandono existe algo que os seus antepassados tanto valorizaram. É verdade que também há exemplos de preservação e recuperação como os moinhos de rei no concelho de cabeceiras de basto (apesar da utilizaçao de cimento, uma coisa despropositada na recuperaçao de moinhos de pedra).pedro
(http://asvoltas.blogspot.com)
(mailto:pedroant@netcabo.pt)


Comentar artigo

.Artigos recentes

. Rural Matters!

. Artes e Ofícios!

. Rural(idade) vs. Urban(id...

. Despovoamento!

. E tudo a água (e o betão)...

. Ainda há pastores!

. Agrocultura!

. Promessa!

. Povo que (ainda) lavas no...

. Adufada!

. Os Novos Povoadores!

. A propósito do fecho das ...

. Vamos Salvar Sortelha!

. Dia Internacional dos Mon...

. O Portugal de Orlando Rib...

. O Entrudo!

. Cantar as Janeiras!

. Ritos Transmontanos!

. Genealogia!

. Arquitectura Tradicional ...

. Música Popular Portuguesa...

. Etnólogos Portugueses!

. A aldeia da minha vida!

. Qual é a aldeia da sua vi...

. Nova Corte na Aldeia. Int...

. A propósito do acidente n...

. Querem destruir o Museu d...

. O que é a paisagem?

. Os incêndios e a desertif...

. Portugal a voo de pássaro...

.Arquivos

. Agosto 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Fevereiro 2007

. Outubro 2006

. Maio 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Julho 2005

. Janeiro 2005

. Outubro 2004

. Julho 2004

. Abril 2004

. Fevereiro 2004

.Links

.Pesquisar neste blog

 

.Visitas

Website counter

.Visitantes Online

.Facebook